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Mostrando postagens de 2013

parcoração

meu patético coração
palpita
como uma planta
que paira
na paisagem
parca
e opaca
pareço paixão
mas sou pausa
padeço sua ausência
e percebo
paradas horas
que passarinham
num piscar

Momento Precipício

Estou aqui, na borda do tempo
Atravessando a travessia do meu corpo
Enaltecido, tocado e munido
Pela sua presença
Arranquei-lhe do reduto dos meus pensamentos
E espalhei-te pelos meus sentidos
Para que todo o meu corpo respondesse
Ao te ver
Perco-me na camada de vida
E no violento violar de mim mesma
Quando o momento precipício ocorre:
Apesar de saber-te ali,
Sei também que vai embora

Cedo

Enquanto penso no medo
O que pensará o medo sobre mim?
Escondida na casca, tonta
Em segredo me amedronta
Antes do toque do clarim
Sob o olhar do medo uma concha construo
E nela coloco todo o medo que possuo
Para trancafiar-me com ele
Até o fim

Errônea

Resquício de querer
Tão claro que quero
Assim tão sincero
Quanto a borda do penar
Sem miséria arrependida
Ou espaços de naufragar
Eu, como o ser torto que sou,
Acostumei-me a ser errado
E quando sou bem interpretado
É apenas mais um erro
De quem lança o olhar
Porque minhas mazelas
Todas elas
Carrego no peito
Já que não há jeito
Delas se livrar
Assim, resta-me apenas revirar tumultos
E bisbilhotar os vultos
De quem passa por mim
Sem chance de ficar

Amarelo Amaria

Ah, Maria
Como eu te amaria
Até o mar iria
Amarelo ria
Já que amargo seria
Amor tecer assim só
Mas amar, Maria
Não é arma de disritmia
Me falta ar mar poesia
Pois se não fosse mar, ria
Seria ar de maresia
Atando na garganta um nó

a deu smile

Sei umas maneiras de morrer
Hoje me matei de possibilidades
Matei meus planos de fumaça
Matei a sorte e a garça
Matei-me, por assim dizer
Eu, ser vivo, sou uma casca
De riso frouxo, alma rala
E sem um sentimento que preste

lombrigas

preencher o vazio
com palavras vazias
é como matar um morto
a facadas
adoçar leite condensado
arruinar uma ruína
rasgar um buraco
alimentar lombrigas
sugar sanguessugas
dourar o ouro
e calar os ruídos
da alma

cadernovo

Busco uma enorme página marfim com a qual eu possa colocar toda a conversa em dia, falar das futilidades, trivialidades que percorrem a mente em dias de sol como hoje, enquanto eu fui eu o dia inteiro, euforias e eufemismos constantes, da paz meditativa até a ansiedade depois do café da tarde, pois é assim que se desenham meus dias, quando penso que está tudo resolvido chega o BOOM e me abala, às vezes o estrondo é inaudível, mas por algum motivo eu ouço, nem que seja como uma mosquinha zumbindo eu sempre ouço, você também deveria tentar ouvir esses barulhos, faz bem saber o que nos faz mal para que volte a fazer bem, exorcizar os relaxos e inflar os caprichos, continuar fazendo ou voltar a fazer tudo o que nos faz bem, como desenhar as primeiras palavras em um novo caderno, um desses velhos cadernos da minha coleção na gaveta do criado mudo ao lado da cama, luminária de luz quente acessa, revelando pensamentos que eu mal sabia que estavam na cabeça misturados com flashes de memória …

Conversando sobre conversar

- Basta abrir a boca e libertar algumas palavras, algumas futilidades.
- Como se fosse assim tão fácil.
- É bem fácil, posso te garantir. Pense nas conversas que você tem durante o dia, são diálogos normais, sem jogos de pergunta e resposta.
- E se uma dúvida surgir, como agora?
- Aí você tenta transformar em um comentário que gere a resposta que procura.
- Só que nem sempre funciona.
- E é natural. Mas sabe, às vezes a dúvida é tão trivial que se perde durante a conversa. Deixemos o assunto fluir leve.
- Gosto de pensar assim, mas ainda tenho medo que nosso diálogo não se desenvolva muito...
- O papo tem que seguir tranquilo, sem cobranças ou indagações desnecessárias, pois é assim conhecemos melhor as pessoas, em momentos descontraídos.
- Engraçado pensar que algumas são capazes de falar sobre si de maneira leve, sem dramas ou impessoalidades demasiadas.
- Ah, isso que é elegância! Demonstrar alguns rabiscos de si ocasionalmente e sem segundas intenções.
- Mas ficam as lacunas...
- …

(des)

suponho-te solto
e desalinho
arredo o desenredo
e susurro baixinho
erros vários
cor de anil
desmembro linhas
descasco flores
desenterro
desmaio
e desisto

refração

quando pensei em me calar
o tempo chegou
e mastigou o que eu dizia
vomitou-me
um mar de ideias
em sopa de letrinhas
no qual nado nado nado
e nada acontece
afogo-me como um gato
que se escalda com prazer
sem prazo para submergir
sem subúrbios para explorar
e sem estripolias para polir

quando pensei em desistir
vieram anos e anos e anos
e mais anos ainda me mostrar
uma fresta no resto do fundo
dizendo que foi pouco quase nada
de um nado nada sincronizado
meus pedaços todos díspares
disparando em todas as direções
ações de pequenos berros diários
somados repetidos refratados
abandonando-me bem baixinho
para que ninguém perceba
quando eu me juntar

quando pensei no tempo
o silêncio chegou
e foi tão inútil
quanto cada palavra que já escrevi
cada ideia que transpirei
cada gesto para alcançar
cada sonho que cativei
sou tão pequena que até me envergonho
de tão plena me orgulhar
inflar correr bradar
a cada passo passa um espaço
entre eu e minha completa
inutilidade

(es)

Espero que a espera espere
Que a esperança de esperar
Se esparrame em espasmos
Se estilhasse num esmero
E esgane quem deixou o esperançoso
Esquecido

Fluxo dormente

Às vezes, pouco antes de dormir, identificado um sentimento puro dentro do coração, que de tão bonito tenho dó de deixar de escrever porque estou cansada, o sono vem vindo, me invade aos poucos e esse amor relaxa todos os meus músculos, por último os do meu rosto quando percebo que estou sorrindo, e quando me sinto assim sempre parece que estou escrevendo mesmo que eu já esteja dormindo, desenhando as letras no papel e aproveitando cada pulsar do que chamo de amor borboleta, por ser colorido e efêmero, só acontece quando o mundo inteiro se apaga e eu continuo iluminando um cantinho por estar calma, tranquila e satisfeita com cada detalhe, até mesmo com os defeitos daquilo que me cerca numa espécie de aceitação plena, a calmaria depois de um grande prazer.

A piranha sueca

Você está lá, meio que de bobeira, vendo TV com o tablet ou o celular por perto, ou quem sabe na frente do computador, insone, e não resta nada mais além de abrir aquela página maldita engolidora do nosso tempo chamada Facebook. Ah, como é bom ocupar o nosso precioso tempo com umas fofoquinhas de conhecidos, não acha? Dito isso, preciso confessar algo aqui: me considero um pouco stalker. Nada muito grave, não a ponto de incomodar as pessoas com isso, gosto apenas de ficar navegando em perfis alheios ou de conhecidos de longa data com quem perdi o contato. Em outras palavras, gosto de ficar bem informada sobre como as pessoas estão levando suas vidas.
Outro dia eu estava numa onda dessas e percebi que uma conhecida estava se despedindo demais de todos e que havia acabado de se casar. Só a parte do casamento já me deu um frio na espinha – imagina, será que, só porque casou, ficará trancada em casa, sem poder trabalhar nem sair com os amigos? Fiquei acompanhando uns dias o perfil dela (…

Anoitecendo

O entardecer cinza alaranjado entra pela janela do quarto. Mas como pode um cinza ser alaranjado? Imagino que esse seja um grito do sol contra as nuvens que o escondem, que insistem em tampar os tons de amarelo, alaranjado e azul que se misturam tão bem nesse final de inverno, que de tanto frio e depois de tanto calor deixou as árvores loucas e fez com que as azaleias no meu jardim florescessem bem antes do tempo. Meses antes, elas devem estar tão ansiosas quanto eu pela chegada da primavera, só que, ao mesmo tempo, os ares de outono atacam também as árvores que perdem folhas aos montes e enfeitam as calçadas – uns chamam de sujeira, mas para mim é enfeite.
Esses dias ventava muito mas eu não estava aqui, caminhava em um gramado há 150 km de casa sem saber muito bem para onde ia, como quem segue o instinto animal, a necessidade primeira de andar. Fazia sol e tudo estava colorido sob a luz dura do início da tarde, penso que o tempo congelou enquanto eu caminhava, éramos eu e as folha…

Zona de desconforto

Num piscar de olhos vi dezenas de caminhos ramificados diante de mim e fiquei com medo, logo eu que sempre abominei a rotina e me dividi em tantas, que me orgulhava em não saber o dia de amanhã, poder respirar tranquila e em seguida sair correndo até anoitecer, tive um medo diferente, nada desesperador, apenas prático, como se de repente a idade se multiplicasse dentro de mim e me agarrasse, as possibilidades se desmoronando enquanto estou amarrada na cadeira, nenhum músculo se move, congelo na zona de conforto, quando foi que me escondi assim? agora quero sair, como ser escritora sem ver gente, sem ouvir conversas no ônibus, sem vasculhar olhares de desconhecidos, sem sentir cheiros, ouvir vozes, sentir raiva, sair correndo, se perder, se achar e se perder para nunca mais se achar?

Tubo de Bambolês

A pequena passou debaixo da catraca do tubo Pinheirinho na Rui Barbosa e desatou a correr com seu vestido florido. Era um dia de sol depois de quase duas semanas de chuva em Curitiba e os adultos estavam todos em fila esperando o ônibus chegar. Em fila também correram as mulheres atrás da criança que se deliciava zanzando entre os grandes bambolês do tubo enquanto as demais gerações pediam até a ajuda de Deus para rapa-la. Esperta foi a irmã adolescente que, ao invés de permanecer na fila, foi pelo outro lado para cercar a criança, que logo estava na segurança dos braços da mãe levando uma bronca de leve, dessas que as mães sensatas dão em público. Um pena ela ter deixado de correr.

Livro Fluorescente

O jovem casal se aproximou do ponto de ônibus, não deviam ter mais de 18 anos, ela com a blusa combinando com a sapatilha vermelha, bolsa azul claro e calça jeans, cabelo liso e comprido, franja na altura da sobrancelha, livro na mão. Levava o livro como uma pasta preciosa de capa alaranjada, fluorescente no cinza de inverno da cidade, um nome conhecido escrito ali: Paulo Leminski. O ideograma/retrato do poeta feito por Claudio Seto fazia parte agora da troca de carinhos de um casal adolescente. E a moça sabia muito bem o que carregava, empunha seu escudo com todo respeito que merecia.

Quando ele foi embora ela ficou lá, livro na mão e olhar distante, acompanhando o rapaz.

Mais um amor lindo que se foi

Acabou. Foram anos de companheirismo, amizade, momentos bons e ruins, sonhos juntos, ideias compartilhadas, planos, devaneios, dinheiro, música, sol, chuva, passeios, cinema, projeções, jantares, noites mal dormidas e bem aproveitadas, frio, calor, sereno. Nesse tempo juntos nos acompanhamos tanto que até nos confundimos, as pessoas já nos viam como um só, inseparáveis, o par perfeito, não havia questionamentos nem dúvidas tão bem encaixados estávamos, tão certos éramos em nossos lugares.
Mas agora chegou ao fim. E quem nunca passou por isso?
Pergunto-me qual teria sido a minha primeira companhia na vida, o primeiro objeto ou o primeiro desejo que classifiquei como um sonho. Andar? Falar? Ter dentes? Ser igual a mamãe? E o meu brinquedo preferido? E o cobertor mais quentinho? Talvez em fotos da infância possamos identificar os elementos que fizeram parte das nossas vidas em outros tempos, nossos pequenos amores – e, por trás deles, encontraremos os grandes amores, sonhos que cultivam…

Meu perfil no Facebook não me representa

Lembro-me como se fosse hoje das primeiras sensações de seguir a vida de alguém pela internet – algo bem comum e amplamente aceito hoje em dia. Em 2005, época do auge do Fotolog, eu costumava seguir alguns contatos de contatos diariamente, vários desconhecidos que publicavam uma foto por dia e falavam nada sobre coisa alguma. Foi a primeira vez que tive a experiência de transportar as pessoas que via em foto para o meu convívio, como se já as conhecesse previamente, com um julgamento de caráter já formulado. Havia também, naturalmente, toda a magia e o mistério de transformar as figurinhas da minha memória em pessoas que se mexiam, eram palpáveis e continuavam existindo na rede.
Hoje, com o Fotolog praticamente morto e o auge do Facebook, é natural prejulgarmos toda a nossa timeline status após status, curtindo e compartilhando o que condiz com nossos pensamentos e ideologias (sim, acredito que todos temos ideologias). Mas, por outro lado, me pergunto até que ponto uma rede social po…

Pelos Ares

Há algo preso em minha garganta, algo que me entope e impede, que me percorre desde os olhos, passa pela boca sem emitir sons, incomoda a garganta, aperta o coração, faz o pulmão pedir mais ar, remexe meus braços, revira o estômago e, por fim, me faz ter vontade de correr, mas permaneço sentada, quem me olha acha que estou confortável e nem imaginam que o incômodo já invadiu o meu sangue, não quero demonstrar, me levanto e começo a andar normalmente, porém sem perceber começo a fazer barulho e muitos estão fazendo barulho comigo, mal sei de onde surgiram tantos, e seguimos juntos sabe-se lá para onde.

Quando o amor desacontece

Um amor de perfeito clichê Uma agonia Um casamento Uma folia Desanda nos anos Desatam as mãos Buchechas rosadas Saudável ilusão Amor velado de um dia Agora é frustração E a busca de um motivo Um culpado para apontar Tira as noites de sono Ah, só eu mesmo sei como
Me esqueci o que é amar

Para Inspirar

Um hoje já caído e distante
Do meu estranho ser, leve o fugidio
Amontoando caixas cheias de ar
Para talvez usar depois
Anoitece e os sons se dissipam
Em forma de caos cintilante
O avião passa e deixa som de espaço
Abertas asas para quem só sabe voar
É preciso encher os pulmões
E inspirar a vida
Antes que expiremos o eu nosso
De cada dia

Percepção

Uma hora depois de trabalho e lá estavam as 400 Santas Ritas de Cássia me olhando em suas formas redondas, divididas em duas porções de 200 e apenas o som dos trabalhadores e dos cães latindo ao longe, como no dia em que abri a porta do banheiro logo após o banho para deixar os cachorros saírem e o cheiro de café fresco invadiu minhas narinas, a mesma sensação de passar a toalha no corpo para se enxugar, num piscar de olhos as gotas somem da nossa pele, já que perceber e meditar são primos, é preciso se sentir, sentir desde o couro cabeludo até a ponta dos dedos dos pés para então descobrir de onde a angústia vem, um espirro e o cachorro andou, o barulho da máquina de cortar grama aumentou, o que tanto cortam lá fora, olho pela janela e só vejo o gol branco do vizinho da frente, de onde vem, é preciso perceber para saber de onde vem.

poesia para que

fácil poesia seria
se eu criança fosse
em desgovernada carroceria

poesia ser por que
ante luas vistas
despertar ao enternecer

sons madrugada adentro
fagulha leve penetrar
música como um unguento

antes explicação tonta
poesia para que
do que burrice pronta

Foi como se

No final do dia ela disse “estou cansada”, mas por trás daquele cansaço todo havia uma pessoa cheia de energia mal aplicada, um dia após o outro de necessidades acumuladas, correndo atrás de alguns dias de folga mas a cabeça não para, quem sabe atrás de um silêncio que não existe e uma paz de muletas, não enxerga o pensamento incorreto, é preciso acordar cedo para um novo dia que brilha e reverbera louco, cheio de gente e carros correndo e correndo, todos atrás da mesma coisa só que diferente, e foi quando olhou para a página de um livro e pensou por um instante que estava morta, morreu por completo naquela hora, “morri”, pensou forte e foi como se estivesse morta mas em seguida dormiu profundamente e só acordou no outro dia para resolver tudo que se propôs a resolver e deixar de se sentir tão culpada por ser livre de tudo aquilo que os outros fingem ser.

Para ser corrompido

Parecia só uma bala para guardar um segredo, uma bala daquelas bem gostosas de morango com recheio mole dentro, meio azedinhas, logo veio um pacote delas e você lá, aceitando todas, se deliciando lentamente, elas estão derretendo na sua boca, machucando a sua língua e, junto com sangue, você descobre que o pacote de bala foi roubado de alguém que precisava mais daquelas balas que você, mas nem ligue, são apenas balas, todos roubam balas, homens de bem, homens honestos, homens trabalhadores, todos, em algum momento, já roubaram balas, sou apenas mais aproveitando um doce roubado, tão bom quanto os doces de infância, e para tê-lo precisei apenas guardar um segredo mixuruca, um detalhe bobo que ninguém precisa saber mesmo de tão bobo que é, uma informação tão corriqueira, acontece todos os dias diante dos nossos olhos e fingimos não ver, reclamamos das coisas como estão e continuamos a repetir o erro, a abrir mão dos nossos direitos, nos corrompemos aos pouquinhos, como um balão que vai…

O sonho acabou

Alguns podem pensar que é imaturidade, outros que é pura falta do que fazer, talvez uma ingenuidade forçada de alguém que nunca passou necessidade na vida, ou ainda mera preguiça de acordar todos os dias cedinho junto com as galinhas (alguém vê galinhas na cidade?), pegar o trânsito maldito de todas as manhãs, ouvir as notícias de sempre, promessas de governo, última festinha falida do BBB, quem o Neymar anda pegando, o quanto a gasolina vai subir e o último mês do IPI baixo chegando, uma bela chance para ter um carro novo, mudar de vida, estacionar ou descer do ônibus, ir para o trabalho, ficar lá sentado ouvindo um monte de gente falando com você sabe-se lá o que, e você torcendo para que todos fiquem longe enquanto você mata um tempo no Facebook para ver o seu feed de notícias melhor ainda, tanta gente feliz mostrando o quanto é feliz, o que comeu ontem, que filme viu, qual a última revolta compartilhada, a última petição assinada, os cães que precisam de abrigo, encontre um lar p…

Antes de dormir

Na calma centrípeta das horas
Ouço um fato interessante
No vento forte que me empurra
Um passo adiante
A tontura de pioras
Corpo mole em sofreguidão
De doente acamado
Com a cabeça no chão
Um sono quase vitória
Conduz a madrugada
De calo quase frio
E sinusite atacada
Fecha os olhos e, aos poucos
O corpo mole se entrega
Tudo relaxa, devagar
Mas a ideia se nega

TPM

Letra e composição: Mylle Silva Vestido pendurado
Sapato encerado
Tudo prontinho aqui
A festa logo mais
Estava tudo em paz
Até que então eu percebi
Que não queria
Vestir aquilo ali Corri pra loja de acessórios lá da esquina
Que eu sei que vende uns importados lá da China
A vendedora bem ligeira percebeu
Meu desespero e já me ofereceu
Um colarzão de R$1,99
E uma pulseira de pingente escrito love
Mas acabei comprando só um ponto de luz
E já ia fazendo o sinal da cruz
Quando numa vitrine eu vi Aquele sapato
Tão lindo, tão barato
Tão meigo, tão pra mim
Vi a moça de bobeira
E já com a mão na carteira
Pedi pra experimentar um igualzim
Eu sentada na poltrona
Veio a moça e disse dona
Esse modelo está no fim
Eu só tenho o 36
Não é seu número, mas talvez
Te sirva mesmo assim Foi então que veio uma outra mulherzinha
E me fez colocar o sapato com uma espuminha
Disse que logo eu ia sentir a diferença
"Vai lassear bem antes do que você pensa"
Mas eu não me convenci Eu já tinha um vestido
Nem curto nem comprido
Eu podia…

Lendo na sexta marcha

Um louco, vidrado. Andava rápido, ansioso, livro aberto nas mãos. Desviava as pessoas e atravessava a rua sem tirar os olhos do papel, será que estava mesmo lendo? Camiseta branca, encardida, calça e blusa pretas, usava boné. Passaria facilmente por drogado, maluco, ladrão de galinhas, inofensivo. Mas, e aquele livro, o que tinha naquele livro? Capa preta, no título a palavra MORTO em vermelho. E ele vidrado, engolia as palavras enquanto andava gingando pela República Argentina, as pessoas na velocidade normal, aquele trânsito lento de canaletas em Curitiba e o cara já na sexta marcha, se abastecendo com cada palavra, nada o faria fechar o livro.
Andou dias e noites assim. O livro não era longo, mas ele lia devagar, gostava de atrasar o final. Mas, por uma infelicidade dessas, não foi capaz de ler a última frase: uma fome imensa o tomou e ele se alimentou de papel.

Oportunidade

Um dia você está lá, sentado em sua vida, conduzindo-a, até que noutro alguém te joga uma bola e te pede para segurar. Mas, para pegar, é preciso se levantar rápido e, assim que o faz, percebe que a bola era muito maior do que imaginava. É um tormento. Seus dias, outrora tranquilos, agora estão repletos de pensamentos a respeito da bola e de um plano para pegá-la facilmente. Sem opção, você pensa em abandoná-la, mas ela é tão redonda e tentadora que algo te prende ali, você não consegue simplesmente dar as costas e ir embora. Que diabos tem essa bola, afinal? Mais um passo e a terra começa a ceder. Você se joga para a bola, quer agarrá-la a todo custo, mas cai de braços abertos sobre ela. Percebe que está em um buraco fundo, como cheguei aqui? A bola é maior do que o seu corpo, talvez você devesse sentar-se como nos velhos tempos. Não, é preciso sair, já está escurecendo. O desespero te toma e você dá socos na bola, até que ela te responde e começa a quicar. E então você pula, pula t…

Doação de Cachorro Objeto por Gente Abjeta

Ter uma convivência de bairro, andar pelas lojas e panificadoras da região e se concentrar em apenas uma área tem lá suas vantagens. Sempre tem aquele espaço dos cartazes, oferta de serviços, cães perdidos, cães achados e cães para doação. E foi numa dessas que vi a foto de uma cachorrinha bem simpática da qual a dona queria se livrar. “E a mulher do cachorrinho?” “Telefona pra ela”. Como tenho certa preguiça de fazer contato e ser simpática, o contato foi feito pela minha mãe.
“O cão é terrível, incontrolável, bagunceiro, arteiro, come terra, come os brinquedos da minha filha, não dá pra deixar ela dentro de casa sozinha, é um terror” Ana não parava de falar ao telefone, e minha mãe lá, só ouvindo, parecia até que não queria que alguém pegasse a cachorra. Mas a Ana veio, antes do meio-dia, com o cachorro num braço e a filha pela mão, no outro, criança com cara de choro, manhosa enjoadinha, e a mulher não parava de falar sobre os problemas que tinha, renite, conjuntivite, a pastora …

Carnivorando

Com o desejo de me tornar Parte de uma estante Vou refazendo tudo que posso A todo momento Rebuscando minhas posses Meus passados errados Convicções estratégicas E memórias quase rasgadas Alinhando as curvas Curvando os cantos Como se a torpe busca por perfeição Fizesse de mim um imperfeito com estilo E do meu amontoado de palavras O pedaço da minha carne Que quero transformar Em livro

Como se tornar escritor? #01 Desde minhas primeiras poesias

Há algumas semanas uma ideia tem martelado na minha cabeça: fazer vídeos sobre literatura. Depois de procurar os vídeos que o pessoal já faz sobre o assunto, cheguei a conclusão de que não queria falar sobre as minhas últimas leituras, mostrar a minha estante ou falar sobre minhas preferências. Queria mesmo era falar sobre o fazer literário.

O negócio é que eu também não tinha tanta propriedade assim para falar sobre como se faz literatura, afinal eu não consigo me considerar escritora propriamente dita, por isso resolvi reformular a ideia e abrir um questionamento: como se tornar escritor? 

E assim, dei início a uma série de vlogs sobre o assunto que vem me atormentando por tanto tempo - mais ou menos 18 anos, para ser mais exata. Nesse primeiro vídeo, mostro ao mundo as minhas primeiras poesias, o velho caderno no qual eu as registrava, minha letra infantil e minhas primeiras aventuras como escritora.